Assumir uma cadeira de CEO já é, por si só, um processo de cem dias intenso — e chegar decidido a "resolver IA" junto com todo o resto costuma sair pela culatra. O roadmap que recomendo separa a jornada de IA em quatro trimestres, cada um com um objetivo único, para não competir com as outras prioridades do primeiro ano.

Primeiro trimestre — ouvir antes de decidir

O erro mais comum de CEO novo é anunciar direção de IA antes de entender o que já existe. O primeiro trimestre deve ser dedicado a mapear, sem julgamento prévio, todo investimento e piloto de IA já em curso, entender por que cada decisão foi tomada, e formar visão própria — sem comunicar nada ao mercado ou ao board ainda além de "estou avaliando com critério".

Segundo trimestre — tese e critério

Com o mapa em mãos, o segundo trimestre é para construir a tese pessoal de IA para aquele negócio específico: onde ela cria vantagem competitiva defensável, onde é só redução de custo replicável pelo concorrente, e onde a empresa está exposta sem saber — inclusive em visibilidade de marca perante IA generativa, tema que a Escala Will tornou mensurável ao encontrar 57% de invisibilidade em 552 marcas avaliadas.

Terceiro trimestre — primeira decisão pública

  • Consolidar ou descontinuar iniciativas redundantes identificadas no primeiro trimestre.
  • Anunciar ao board a primeira decisão de IA com critério documentado — não a maior decisão possível, a mais bem fundamentada.
  • Estabelecer governança mínima: donos nomeados, critério de sucesso, régua de quando parar.

Quarto trimestre — institucionalizar o critério

O objetivo do último trimestre não é lançar mais projetos, é fazer o critério de decisão sobreviver ao CEO — transformá-lo em processo que o comitê executivo aplica de forma consistente, mesmo em decisões que o próprio CEO não vai revisar pessoalmente. Isso inclui treinar os diretores diretos no mesmo framework de decisão usado nos trimestres anteriores.

"o objetivo do primeiro ano não é 'a empresa dominar IA'. é o critério de decisão sobreviver além da atenção pessoal do ceo."

Como saber se o roadmap funcionou

No fim do primeiro ano, o teste real não é quantos projetos de IA foram lançados — é se, numa reunião sem o CEO presente, o comitê executivo consegue tomar uma decisão de IA usando o mesmo critério que ele construiu ao longo do ano. Se sim, o roadmap não produziu só resultado, produziu capacidade organizacional.